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Informações falsas sobre vacinação enganam a população em plena pandemia

Quando o assunto é pandemia, a ignorância ronda as redes sociais e enganar incautos.

Pós-verdade, fatos alternativos, pseudociência e teorias conspiratórias misturam-se em diferentes doses na elaboração das receitas de informações falsas que alguns espertalhões mal intencionados usam para enganar pessoas com escassos conhecimentos científicos.

A mentira corre solta, aparentemente patrocinada por setores ligados ao governo, que buscam criar ilusão e debates inúteis para desviar a atenção do fracasso do governo brasileiro no combate à pandemia.

Como é o caso da matéria publicada na página abaixo, que revela a apuração de fatos em cima de mentiras divulgadas em redes sociais e atribuídas a médicos conhecidos por seu apoio ao governo e sua política.

https://www.agazeta.com.br/brasil/medicos-nao-provaram-que-uma-vacina-precisa-de-10-anos-de-pesquisa-para-ser-segura-1120

PUBLICADO EM

Perigos de informações falsas durante a pandemia – “fatos alternativos” e pseudociência são prejudiciais para a saúde

Atualmente existem certas informações que não estão conformes as fontes objetivas e usuais de informação, a formação acadêmica, os consensos da Ciência e as regras de civilidade e boa educação. Essas informações pertencem a uma espécie de realidade paralela e são definidas como “pós-verdade” ou “fatos alternativos”. Esse tipo de informação é o que alimenta o populismo na era da Internet, o populismo de redes sociais e aplicativos de celular. E os resultados disso, não são bons.

No caso brasileiro, governo federal, na voz de seu mais alto representante, o presidente da República, vem colocando em questão a realidade da pandemia e a necessidade da vacinação. É perversa a aplicação de “pós-verdade” ou “fatos alternativos” quando o assunto é saúde.

No Brasil, uma das principais redes hospitalares privadas chegou a divulgar, em seu site, uma página advertindo sobre os riscos da pseudociência durante a pandemia (confira em https://www.rededorsaoluiz.com.br/instituto/idor/novidades/pseudociencia-pode-agravar-riscos-e-danos-durante-a-pandemia )

A repercussão dessas declarações é variada, mas basicamente existem três recepções a essas declarações. Há os que acreditam que seja apenas uma comunicação agressiva e desastradas e que esse é o estilo do presidente. Outros acreditam que o presidente está dando uma instrução e procuram legitimar, em redes sociais, o que o presidente diz, recorrendo a fake news, teorias conspiratórias e até a pseudociência. Esses passam adiante as suas informações, falsas ou exageradas, em grupos de aplicativos de celular. E há ainda um terceiro grupo, os que acreditam que as declarações presidenciais são coerentes com o negacionismo diante da pandemia e, portanto, com a atitude geral de negligência governamental, que fez o país reagir à pandemia como uma orquestra desafinada, sem maestro, ao sabor de decisões de governos locais.

As redes sociais e aplicativos de celular (principalmente Facebook, Instagram, WhatsApp, do Sr. Marketing Zuckerberg e o YouTube, do Google e o Twitter) não se sentem responsáveis pela curadoria do conteúdo que publicam e seus algoritmos não impedem, e até parecem facilitar, a divulgar de informações falsas que são potencialmente prejudiciais à saúde.

O prejuízo que as pseudociências, fake news, teorias conspiratórias ou, como alguns preferem, “fatos alternativos” e “pós-verdade” foi denunciado em manifesto assinado 2750 cientistas e médicos de renome mundial. (Confira em https://www.bbc.com/portuguese/geral-54727068 )

Há, entre esses conteúdos, os que põem em dúvida a vacinação. Essa situação é agravada quando associada a fontes governamentais. Elas não são entendidas apenas em um contexto e criam um clima onde os movimentos antivacinas, foçados em pseudociência, podem prosperar.

Todos nós sabemos que a ameaça de doenças, que já vitimaram muitas pessoas, pode ser prevenida com o uso de vacinas. Mas, pelo menos no caso da poliomielite, a doença pode voltar. A causa será a negligência com a vacinação. Mas o que leva as pessoas a abandonarem uma conquista tão importante? Afinal, foi uma vitória da Ciência que evitou muito sofrimento.

O que estamos vendo é o surgimento em redes sociais, repercutidas em aplicativos de celulares, de informações falsas que enganam as pessoas. Essas informações obedecem a interesses que agem sem compaixão e com total irresponsabilidade.

“A disseminação de “fake news” – ou notícias falsas -, o medo de reações adversas e o sentimento de segurança a respeito da eliminação de doenças são alguns dos fatores que têm contribuído para a redução das coberturas vacinais pelo Brasil. De acordo com dados do Ministério da Saúde, até o dia 22 de outubro, nenhuma das vacinas que constam no calendário nacional atingiu os indicadores presentes no Programa Nacional de Imunizações.”
( a matéria está em
https://www.folhavitoria.com.br/saude/noticia/10/2020/especialistas-falam-sobre-o-impacto-das-fake-news-nas-coberturas-vacinais-do-pais )

A bem sucedida erradicação da poliomielite no Brasil poderá ser revertida porque a vacinação não está tendo cobertura suficiente. Essa doença pode causar deficiências físicas irreversíveis e morte.

“Em um momento em que há o debate sobre a obrigatoriedade da vacinação contra a covid-19, os dados são preocupantes. Em 1994, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) a certificação de área livre de circulação do poliovírus selvagem. O título só foi alcançado depois do esforço do governo brasileiro para disponibilizar a vacina gratuita em todo o país.”

“De acordo com dados do Ministério da Saúde, divulgados na quinta-feira, 29, a maior cobertura foi registrada entre as crianças com dois anos de idade (45%), enquanto a menor foi registrada entre as crianças de 3 anos de idade (43%). “

( Leia o texto completo em: https://exame.com/brasil/vacinacao-gratuita-pelo-sus-termina-nesta-sexta-e-so-atingiu-45-da-meta/ )

“Vamos ser claros: as pseudociências matam.”

“Essa é a mensagem que une 2.750 profissionais de saúde de 44 países (90% deles trabalhadores de saúde e cientistas de várias disciplinas).
O “1º manifesto contra as pseudociências em saúde”, assinado por essa massa de profissionais, levanta a discussão sobre regulamentações contra produtos que não tenham eficácia terapêutica comprovada com rigor científico.”

https://sindicatoexpresso.blogspot.com/2020/10/pseudociencia-mata-e-da-dinheiro-para.html

Toda a argumentação contra a vacinação não vem de pessoas preocupadas com a saúde e o bem estar do próximo, mas de gente que quer fazer politicagem com a pandemia e a vacina, repercutindo a orientação errática que emana do governo. Toda essa argumentação é um somatório de argumentos sem valor, acumulados como lixo fedorento, por adeptos de teorias conspiratórias e pseudociência. Essas pessoas, iludidas ou de má fé, acreditam que suas opiniões não científicas servem a alguma ideologia. E essa falsa convicção os anima a espalhar informações falsas. Quando, na verdade, essa informação errada revela apenas que seus autores não têm conhecimentos sobre questões que dizem respeito à Ciência. E, talvez, muitos deles não saibam que esse tipo de informação falsa é prejudicial à saúde.

Publicado em https://sindicatoexpresso.blogspot.com/2020/11/perigos-de-informacoes-falsas-durante.html

Redes sociais e política: a antipolítica, a pós-verdade e o efeito manada online

Redes sociais e política: a antipolítica, a pós-verdade e as manadas virtuais

A antipolítica tomou conta das redes sociais. E é perigosa. O fato de alguém possuir uma rede social não o torna jornalista. A pessoa não tem formação para proceder apuração de uma informação, não tem fontes para se informar de forma sistemática e organizada e não conhece as técnicas que o jornalista usa para publicar suas matérias. O assunto política é uma terra de ninguém. E muitos sempre apareceram para atribuir os piores adjetivos à classe política, atingindo políticos de todas as tendências e filiações partidárias. São, em geral, acusações genéricas, que misturam no mesmo saco toda a classe política e acabam atingindo as próprias instituições que permitem o funcionamento de uma sociedade democrática.

No início, já nos anos 90 do século passado, havia alguns estudos e alguns debates sobre a importância da Web, já se popularizando e tornando acessível, para a vida pública. Chegaram a achar que a democratização do acesso à Internet poderia constituir uma ágora eletrônica, aumentando a participação, a inclusão e a transparência na política. O acesso à Internet ainda não dispunha desses aplicativos de mensagens, de redes sociais ou de smartphones. Era caro e difícil. Não era comum as pessoas terem computadores pessoais, sendo o preço deles elevado e inacessível para a maioria. Mas havia entre alguns estudiosos e ativistas, uma expectativa, ingênua e bondosa, de que o acesso a Internet poderia ser democratizado e contribuir para o aperfeiçoamento da vida pública.

Uma análise dos resultados eleitorais de 2016, publicada no portal El País, informava que a antipolítica já avançava a passos largos no Brasil.

https://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/05/opinion/1475671551_641754.html

Os resultados da antipolítica foram consagrados dois anos depois. O “tem que mudar tudo isso aí”, o novo e a renovação, consagrado pela volta das velhas ideias, da exaltação de um passado pouco recomendado. Não era o fim da política. Era a mesma peça representada por outros atores.

https://diplomatique.org.br/bolsonaro-e-a-antipolitica/

*Talvez a antipolítica seja mais sentimento (ou ressentimento) do que razão. Suas razões parecem, na verdade, racionalizações.

Em entrevista ao Estadão, Jairo Nicolau, cientista político, professor da URFJ e especialista em sistemas eleitorais, disse:
“O partido é uma organização que se tornou cada vez menos atraente. Não só no Brasil. Esse fenômeno é mundial. Nas democracias tradicionais, o número de pessoas filiadas a partidos declina anualmente. Partido, como conhecemos, foi inventado no século 19, teve seu apogeu como organização de comunicação política no século passado. Estamos no século da interação online, as pessoas podem fazer um grupo nas redes sociais, blogs, e comunicam-se com centenas, às vezes milhares, de pessoas. Defendem causas, oferecem cursos, compartilham documentos, conversam entre si. Por que vão sair de casa uma vez por semana para uma reunião na sede do partido? A militância presencial, clássica, cultivada pela esquerda do século 19 e pelos partidos de massa, parece fadada a acabar.”
A entrevista está em:
https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,sentimento-antipolitica-esta-maior-imp-,1560340

Essa mudança, já bem notada, do presencial para o ambiente virtual, tem um impacto nas relações interpessoais e na vida pública. Há bolhas construídas dentro dessas redes sociais que reafirmam opiniões e crenças de seus participantes e vão se tornando impermeáveis à diferença, aos senões, nuances, dúvida razoável e mesmo ao contraditório.

Aqui funciona o comportamento de manada, muito bem explicado em série de reportagens da BBC Brasil.

A manada virtual pode ser manipulada com base em objetivos políticos. Empresas usam isso para faturar e políticos e empresários usam o recurso para dinamitar adversários e capitalizar votos. Essa matéria foi exonerada em uma série de ótimas reportagens feitas pela BBC Brasil.”

“Evidências reunidas por uma investigação da BBC Brasil ao longo de três meses, que deram origem à série Democracia Ciborgue, da qual esta reportagem faz parte, sugerem que uma espécie de exército virtual de fakes foi usado por uma empresa com base no Rio de Janeiro para manipular a opinião pública, principalmente, no pleito de 2014. E há indícios de que os mais de 100 perfis detectados no Twitter e no Facebook sejam apenas a ponta do iceberg de uma problema muito mais amplo no Brasil.”

“O conceito faz referência ao comportamento de animais que se juntam para se proteger ou fugir de um predador. Aplicado aos seres humanos, refere-se à tendência das pessoas de seguirem um grande influenciador ou mesmo um determinado grupo, sem que a decisão passe, necessariamente, por uma reflexão individual.”

“A estratégia que vem sendo usada por perfis falsos no Brasil e no mundo para influenciar a opinião pública nas redes sociais se aproveita de uma característica psicológica conhecida como “comportamento de manada”.

“Se muitas pessoas compartilham uma ideia, outras tendem a segui-la. É semelhante à escolha de um restaurante quando você não tem informação. Você vê que um está vazio e que outro tem três casais. Escolhe qual? O que tem gente. Você escolhe porque acredita que, se outros já escolheram, deve ter algum fundamento nisso”, diz Fabrício Benevenuto, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sobre a atuação de usuários nas redes sociais.”
Matéria publicada no portal da BBC
http://bbc.in/2BZRKYU

A manada vai toda na mesma direção. E ainda tem sua relação com a realidade e os fatos comprometidas pela pós-verdade. A pós-verdade está na essência dessas bolhas.

Em sábias palavras e com referências sábias o teólogo Leonardo Boff analisou a pós-verdade em ótimo artigo. Aqui destacamos alguns trechos.

“O dicionário Oxford de 2016 a escolheu como a palavra do ano. Assim a define:”O que é relativo a circunstância na qual os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e crenças pessoais”. Não importa a verdade; só a minha conta. O jornalista britânico Matthew D’Ancona dedicou-lhe todo um livro com o título “Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news (Faro Editorial 2018). Ai mostra como se dá a predominância da crença e convicção pessoal sobre o fato bruto da realidade.”

“É doloroso verificar que toda a tradição filosófica do Ocidente e do Oriente que significou um esforço exaustivo na busca da verdade das coisas, sendo agora invalidada por um inaudito movimento histórico que afirma ser a verdade da realidade e da dureza dos fatos algo irrelevante. O que conta serão minhas crenças e convicções: só serão acolhidos aqueles fatos e aquelas versões que se coadunam à estas minhas crenças e convicções, sejam elas verdadeiras ou falsas.”

“Aqui valem as palavras do poeta espanhol, António Machado, fugido da perseguição de Franco:”A tua verdade. Não. A verdade. A tua guarde-a para ti. Busquemos juntos a verdade”. Agora vergonhosamente não se precisa mais buscar juntos a verdade. Educados como individualistas pela cultura do capital, cada um assume como verdade a que lhe serve.”

“Na pós-verdade predomina a seleção daquilo, verdadeiro ou falso, que se adequa à minha visão das coisas. O defeito é a falta de crítica e de discernimento para buscar o que de fato é verdadeiro ou falso.”

O artigo foi publicado em:
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-pos-verdade-socrates-morreria-de-tristeza-por-leonardo-boff/

A Internet permitiu criar uma massa de manobra difusa, uma multidão virtual confusa, que, os fatos o demonstram, pode servir ao apelo populista e demagógico de extremistas e fazer com que uma pessoa, enredada na manada e iludida pela pós-verdade, se posicione até mesmo contra seus próprios interesses econômicos e sociais.